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RE(H)ABI(LI)TA A CIDADE

Os arquitectos são intervenientes fundamentais nos processos de reabilitação e regeneração das cidades. Se pensarmos no fenómeno de degradação do edificado da cidade de Lisboa, a reflexão e o debate são prementes. Podemos contribuir apresentando ideias, soluções e estratégias para a cidade que procurem um avanço na resolução desta problemática. Trabalho difícil e complexo. É importante valorizarmos o património edificado, tendo como objectivo o desenvolvimento social, económico, cultural, patrimonial e funcional dos espaços urbanos. As cidades são estruturas vivas definidas pela diversidade espacial e pelas dinâmicas e tipologias de ocupação que os seus habitantes determinam. Crescem, evoluem e transformam-se acompanhando as diferentes épocas da história e a sobreposição de factos e memórias, traduzindo-se em registos de autenticidade que tornam cada cidade única. Lisboa é uma dessas cidades.
A valorização económica do património edificado traz valor acrescentado à cidade e é fundamental que, quando pensamos a cidade procuramos preservar e melhorar a qualidade espacial e a qualidade de vida da população que nela reside e trabalha. O desaparecimento e a ausência de algumas funções, em que destaco o comércio tradicional, proporcionam a degradação e consequentemente a desertificação dos espaços que fazem cidade, contribuindo assim para a redução da qualidade espacial. Sabemos que as cidades precisam de habitantes para que também os visitantes se sintam bem quando as visitam.
O envelhecimento dos edifícios é incontornável, seria necessário uma política de conservação programada e persistente de forma a evitá-lo. O proprietário do património edificado, na sua maioria não actua desta forma, por razões financeiras para as operações de restauro e recuperação ou, por falta de informação e orientação profissional ou, por vezes, pela complexa logística e rigidez que encontra no enquadramento legal das diversas situações, impossibilitando-o de agir de forma eficaz e economicamente viável. Sabemos que as medidas de financiamento e de investimento públicas e privadas permitem alguns avanços. Os grandes investimentos tanto a nível nacional, como internacional são sempre bem vindos, embora considere que devam ser acauteladas as intervenções. Começando por acolher as propostas que procurem conservar as características intrínsecas do edificado e da cultura portuguesa, para além de ser uma oportunidade de criar valor económico recorrendo aos agentes locais, empresas portuguesas, profissionais ligados à construção como construtores, engenheiros e arquitectos portugueses e recorrer a materiais produzidos e criados em Portugal. Todo o trabalho poderá ser pensado através de estratégias locais envolvendo os vários intervenientes nos processos, procurando dar uma resposta em conjunto coerente, baseada em valores patrimoniais assentes na valorização do património e sua conservação. Assim valerá a pena.
Decorrente da necessidade da regeneração urbana enumero alguns exemplos de estratégias já implementadas, embora de escalas e contextos diversos e, que de forma muito distinta contribuíram para a regenerar a cidade: o "Arrebita! Porto" projecto orientado pelo arquitecto José Paixão, o "Reabilita primeiro paga depois" um programa lançado pela C.M. de Lisboa e o "Bip-Zip" um programa de desenvolvimento local aplicado em zonas da cidade consideradas prioritárias e, "a experiência de reabilitação urbana" do GTL de Guimarães.
O arquitecto de forma autónoma ou organizada, tem aqui uma responsabilidade cívica e por isso deve actuar e, desta forma, o seu trabalho será também valorizado, podendo ser olhado de novo como uma mais valia e proposta de valor. Não se quer apenas reabilitar e conservar os espaços, mas também permitir que possam ser habitados, pensando e propondo novos usos, novas dinâmicas, promover rendas acessíveis, contribuindo para revitalizar uma rua ou um bairro, por fim a cidade.

Raquel Morais
Fevereiro de 2014

LISBOA OCULTA
RUA DOS FANQUEIROS

Por razões profissionais realizei a visita a um prédio pombalino, que se encontra no mercado imobiliário do arrendamento. Visto do exterior até parecia estar de boa saúde, revestido a azulejos lindíssimos, azuis, que para além de ajudarem a manter a integridade das suas fachadas, dão cor a uma das belíssimas ruas da baixa pombalina. Mas infelizmente, essa imponência esconde algo de muito grave. Aquele edifício pertence à cidade, serviu de espaço habitacional, pode e deve voltar a servi-la, é para isso que existe, representa várias épocas da nossa história, foi erguido e construído por muitas mãos, representa inúmeros pensamentos e reflexões do passado, merece ser respeitado e manter a sua dignidade e nunca perdê-la, em prol de acções menos pensadas, ou menos dignas.

Falamos de um edifício de 4 pisos mais um de águas furtadas, com uma área por piso de cerca de 200m2. Representa um enorme potencial. Num total de 1000 m2 de espaço que poderá ser habitado, voltar a ser vivido, promover a qualidade de vida de famílias, de indivíduos e que, por sua vez, pode contribuir para revitalizar uma rua, a economia local, um bairro e a comunidade. Acontece que um grupo de profissionais resolve não sei com que atrevimento, imaginar que aquele edifício era ideal para albergar um hostel (mais um) e que com certeza seria um excelente e rentável negócio, mas sem dar atenção ao mais importante e precioso, o EDIFÍCIO! Arrancaram com as obras e o que deu foi que provavelmente por falta de verbas, a obra ficou a um terço de ser acabada, mesmo sabendo que iriam apenas intervir nos pisos 1 e 2. Obra essa que a identifico como um acto brutal, sem qualquer margem para justificações que se possam vir a considerar plausíveis.

O que mais se destaca da intervenção foi que o interior do piso 1 foi totalmente arrasado e criado um espaço único, estruturado com vigas metálicas. Sendo que no segundo piso também foi criado um espaço único, embora já tenham sido introduzidas novas paredes interiores em gesso cartonado ainda sem portas, denunciando infra-estruturas inacabadas. Estes novos espaços mais conhecidos por open-space muito bonitos por sinal, distraem o olhar. Mas isto fará sentido neste tipo de intervenção? Não estamos a falar numa obra em que se retira miolo interior do edifício e ficam apenas as fachadas, fazendo-se um interior de raiz, tudo novo! Mas quanto a isto até pode ser discutível. Existem várias formas e técnicas de reabilitação, colocadas em prática, embora penso que numa recuperação como o próprio nome indica, pressupõe-se manter e preservar algumas das características diferenciadoras e que tornam único um determinado edifício ou espaço, desde que o seu estado de conservação o permita. Mas o grave nesta intervenção inacabada é o facto de terem sido iniciadas obras consideradas de fundo nos pisos 1 e 2 e os restantes pisos respectivamente o 3, o 4 e as águas furtadas continuem em mau estado de conservação, constituindo-se como um perigo eminente: encontramos janelas partidas, madeiras de vigamento e paredes com bicho e apodrecidas, tabiques podres, soalho de madeira danificado, paredes sem o revestimento original pelos azulejos entretanto roubados, ou rebocos, estuques e pinturas a descascar, muito lixo acumulado e bicharada a deambular. Embora no seu conjunto degradado, se evidencie uma beleza e características muito próprias difíceis de esquecer ou ignorar, e que enunciam a dignidade que já representou aquele espaço.

Como foi possível pensar em abrir um hostel nos pisos 1 e 2 e, de seguida, fechar a porta que dá acesso aos restantes pisos do edifício e ocultar ou mesmo negar o seu estado avançado de degradação que representa um alto risco de incêndio, queda de estruturas e componentes, infiltrações, etc. O dinheiro investido nessas obras, agora perdido, teria por ventura servido de forma sustentada para conservar as partes principais do edifício podendo este estar a ser agora alvo de utilização e a ser devidamente rentabilizado. Que desperdício! E as preocupações ambientais?

São necessárias estratégias globais, de fundo. A nossa Lisboa, cidade histórica e única, corre constantemente este risco em prole de intenções altamente perversas em busca do lucro fácil. É urgente salvar o património, mesmo quando falamos em edifícios considerados banais ou de pouco interesse comercial.
Temos profissionais de saúde que salvam as pessoas, é preciso. Têm que ser bons profissionais caso contrario serão chamados à responsabilização. O mesmo raciocínio e prática deveria ser tomado em conta em relação ao às acções perante o nosso património imóvel dos centros históricos, antes que seja demasiado tarde e não haja um retorno possível. Não me cabe a mim condenar estas acções, apenas posso reforçar a urgência e premência com que devem ser tomadas medidas para evitar o pior e salvar o que ainda se esconde por detrás das imensas paredes dos prédios que povoam a nossa cidade, há segredos escondidos e bem guardados outros já perdidos e que nunca mais serão vividos e lembrados. Podia não ter acontecido.
Também podia não ter escrito estas palavras, mas sinto que assim contribuo de alguma forma para alertar e relembrar alguns dos problemas de fundo a resolver na nossa cidade.

Raquel Morais
Maio de 2013